sexta-feira, 26 de junho de 2026

laudada

 o laudo de superdotação acabou com a minha vida...


acabou com uma vida de desculpas, de que eu não estava nos lugares errados, convivendo com gente medíocre. eu é que funcionava diferente e não precisava ser tão arrogante assim.

acabou com a sensação de que eu não me dedicava a nada, que sempre queria estudar coisas diferentes, investigar origens e estruturas, mesmo que eu nunca usasse aquela informação pra coisas "produtivas". 

acabou com a dúvida se aquele tanto de pensamentos diversos que se alinhavam de maneiras improváveis aconteciam na cabeça de todo mundo, ou eu era realmente uma aberração.

acabou com a solidão que eu sentia em todo lugar, porque, mesmo entre vários neurosivergentes na família ainda sim eu era a ovelha negra que, como disse a Carmen, era esnobe demais por entender que o mundo estava, sim, ao meu alcance.

acabou com a paranóia de auto-sabotagem, porque era difícil parar num emrpego por mais de 6 meses, porque entendi que era mais sobre tédio do que conforto. trabalhar por projetos pode ser gatilho pra ansiedade em alguns, mas pra mim era a garantia de empolgação e recomeços.

acabou com a possibilidade de eu me culpar por ter idéias malucas, por não saber explicar como cheguei àquele resultado, por sentir o peso do mundo porque a cada página que eu leio, abro mais 3 abas na minha cabeça.

acabou com a briga digna de condomínio de classe emergente que eram as vozes da minha cabeça, por que, sim, Diertidamente 2 foi inspirado por elas, só pode...

acabou por me dar a resposta que mais me tirou o sono de todas as perguntas perturbadoras que meu terapeuta já fez: não tem vantagem nenhuma em me apegar aos parâmetros que me trouxeram até aqui. e sim, o laudo acabou com as desculpas e as dúvidas. agora eu sei diferenciar o que é do hardware e o que é do software.

eu não sou mais inteligente. só concateno idéias de um jeito mais rpaído e diverso que a maioria. e exatamente por isso, acabou a era da Lary arrogante sem saber o porquê. porque eu sou melhor em muita coisa, sim, mas sigo frágil (like a bomb, not a flower), perdida e sobrecarregada.

ainda não acabou.

(imagem gerada pelo ChatGPT, porque não basta fazer terapia eu preciso materializar os insights. As 7 Larys são em sentido horário começando pela de branco: a original sem rótulo, a Amiga que pra tudo tem uma frase de duplo sentido, a consultora de negócios que faz as pazes entre o RH e o MKT, a baliarina que transforma em movimento o que não encontra palavras, a criatica que faz da semiótica ferramenta de comunicação, a mística que pra tudo tem um chá, a professora que aprendeu que o Universo é o Algoritmo perfeito.)


quarta-feira, 3 de junho de 2026

pessoa e persona

numa mesma semana, cada um com a fala própria do sei viés, recebi a mesma pergunta do terapeuta holístico, a estrategista de marca, a mentora de negócios, o sócio da vida e até a coach de corrida.

qual a distância entre a pessoa e as personas que você performa?

essa não é uma pergunta que chega a me assustar ou incomodar. mas dessa vez me causou pânico. é que  cada persona que compõem essa Lary precisavam de algo que impedia a outra de agir. a mãe não estava propriamente presente no parquinho com o computador aberto e uma duzia de abas na cabeça e textos pra serem lidos, analisados e encaixados na tese, mas a pequisadora também não estava plena já que a cada parágrafo queria um adendo ao editorial de conteúdo digital. a comida era feita com um curso online que eu prometi que montaria uma palestra especial, mas perdi o timing porque a mulher está exausta e no "5min de joginho só pra relaxar" já arrumou mais uma culpa porque há anos não faz um exercício decente.

estou me recuperando de um terceiro burnout, a beira da falência financeira, em crise de fibromialgia, totalmente descontrolada pela perimenopausa, com um diagnóstico de neurodivergência. o marido tá carente, as meninas eufóricas e belicosas, a casa de pernas pro ar, o whatsapp tem quase 100 conversas não lidas que eu deixei pra responder depois. o mestrado com entregas acumuladas e atrasadas, o plano de negócios em versões diferentes que só aumentam a confusão quando abro a câmera pra gravar reels.

e eu sei que, quanto mais distante estão as personas, maior é o esforço pra manter a coerência. ouvi que uma corrente tem a força do seu elo mais fraco. o abismo é enorme entre cada uma. e numa análise pós terapia, fui perceber que cada persona só existe no outro. e veio mais uma pergunta determinante: e qual é o espaço pra mim mesma?

fui mergulhar fundo nessa questão, mas se o meu raso já é fundo pra muita gente, imagina a zona abissal que eu entrei na minha cabeça. e quando eu submergi, consigo, sim, ver todas as personas pairando sobre esse mar revolto. e se eu escolher uma delas, e as outras não conseguirem seguir e acompanhar?

mas, como diz a Dido, eu vou afundar com esse navio e não vou me render. não vai ter bandeira branca, porque vivo apaixonada, e sempre estarei. só tenho que lembrar o porquê.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

unhas escarlate

quando eu era criança, a casa da minha avó Luzia era uma viagem a outra dimensão. aquela senhorinha de 1,40m comandava a casa com energia lá em cima, e não tinha quem ousasse contrariá-la, nem segurar o riso com seus trocadilhos.

era um contraste enorme com a dona Lulu que visitava a gente em Patos. a gente nunca sabia quando ela estava dormindo ou meditando, com os olhos sempre fechados e piscantes, sob o sol, no sofá, por horas.

quando adulta, fui conhecendo outras versões, menos amáveis e divertidas, mas igualmente contrastantes e intensas. meu sonho era ter as unhas escarlate que ela ostentava sempre, mesmo na lida da casa, até o último suspiro. hora de madame, hora de fera. mas sempre escarlate.  pouco a pouco a versão voraz foi dando lugar à quietude, à melancolia. perdeu filhos, perdeu o marido, perdeu o brilho.

o esmalte resistia, mais pela falta de atrito do que pela vaidade. parecia criar raízes no sofá. não como a flor gentil e contemplativa que frequentava a casa dos meus pais nas férias. agora era algo meio mais ou menos. 

sempre que pude, depois das gêmeas, ia visitá-la. e ela sempre perguntava: são suas filhas? sim, vovó, e uma delas tem o nome da sua irmã. ela respoidia "ó!" alegrinha, depois piscava, como se tivesse ido dar um passeio em memórias que nunca conheci.

da última vez que nos vimos, a cena se repetia, com grande alegria, e as meninas, já entendendo a situação, se divertiam e já se apresentavam: eu tenho o nome da sua irmã, a minha irmã tem o nome que a outra bisa deu. era aniversário de alguém, acho, a casa estava cheia como nos tempos áureos. estava ao lado dela e, orando pra almoçar como de costume, ouvi a voz do meu avô, falecido há alguns anos, sussurrar com a voz grave e embolada inconfundível "dai pão a quem tem fome, e fome de justiça a quem tem pão". ela quase não comeou, mas não parava de sorrir. depois da sobremesa, ouvi alguém sugerir levá-la pro sofá, longe da algazarra, e ela disse "não, eu já fico tempo demais no silêncio, deixa!".


duas semanas depois, ela pediu pra se deitar depois do jantar. banho tomado, unhas recém feitas, alimentada. e por lá ficou. no caixão, não pude deixar de notar que as unhas estavam impecáveis. e ela finalmente estava na meditação eterna ao brilho do sol através das árvores.