quando eu era criança, a casa da minha avó Luzia era uma viagem a outra dimensão. aquela senhorinha de 1,40m comandava a casa com energia lá em cima, e não tinha quem ousasse contrariá-la, nem segurar o riso com seus trocadilhos.
era um contraste enorme com a dona Lulu que visitava a gente em Patos. a gente nunca sabia quando ela estava dormindo ou meditando, com os olhos sempre fechados e piscantes, sob o sol, no sofá, por horas.
quando adulta, fui conhecendo outras versões, menos amáveis e divertidas, mas igualmente contrastantes e intensas. meu sonho era ter as unhas escarlate que ela ostentava sempre, mesmo na lida da casa, até o último suspiro. hora de madame, hora de fera. mas sempre escarlate. pouco a pouco a versão voraz foi dando lugar à quietude, à melancolia. perdeu filhos, perdeu o marido, perdeu o brilho.
o esmalte resistia, mais pela falta de atrito do que pela vaidade. parecia criar raízes no sofá. não como a flor gentil e contemplativa que frequentava a casa dos meus pais nas férias. agora era algo meio mais ou menos.
sempre que pude, depois das gêmeas, ia visitá-la. e ela sempre perguntava: são suas filhas? sim, vovó, e uma delas tem o nome da sua irmã. ela respoidia "ó!" alegrinha, depois piscava, como se tivesse ido dar um passeio em memórias que nunca conheci.
da última vez que nos vimos, a cena se repetia, com grande alegria, e as meninas, já entendendo a situação, se divertiam e já se apresentavam: eu tenho o nome da sua irmã, a minha irmã tem o nome que a outra bisa deu. era aniversário de alguém, acho, a casa estava cheia como nos tempos áureos. estava ao lado dela e, orando pra almoçar como de costume, ouvi a voz do meu avô, falecido há alguns anos, sussurrar com a voz grave e embolada inconfundível "dai pão a quem tem fome, e fome de justiça a quem tem pão". ela quase não comeou, mas não parava de sorrir. depois da sobremesa, ouvi alguém sugerir levá-la pro sofá, longe da algazarra, e ela disse "não, eu já fico tempo demais no silêncio, deixa!".
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