A maior intimidade não é o sexo. É dormir junto. É o ponto mais vulnerável, quando você viaja pra dentro e não tem controle do que acontece do lado de fora de si mesma.
Lembro de ter essa conversa quando conheci meu marido. Eu vinha tendo sonhos exorcisantes de relacionamentos tóxicos, mas ele me dava tanta segurança de habitar minha própria pele e liberdade de lidar com minhas sombras, que encarei aquele aconchego como um ponto de proteção.
Quase 20 anos depois, grandes outros pontos de vulnerabilidade foram sendo compartilhados. E, mesmo quando o relacionamento está morno, insoso, até com enormes lacunas entre nós, essa intimidade se mantém.
Mas numa era de intensa performance, ainda tem gente que acha que até a intimidade precisa ser teatral. pijamas de cetim, roupa de cama de fios infinitos, muita firula só pra poder tirar tudo do lugar.
Aqui, a gente segue usando os lençóis que temos. Limpos, cheirosos, e ainda sim cheios de manchas das noites em que as gêmeas dormiam conosco (e muitas intercorrências resolvidas no colo mútuo). Os pijamas? Camisetas velhas que um dia já foram presentes de viagens, mas que, enquanto eu pendurava no varal, senti um arrepio bom de intimidade. É que, quando vamos pra cama, exaustos, depois de lidar com suas próprias questões, manter a dignidade da casa e se revezando entre cuidado com elas e as poucas horas "livres" graças a escolinha pra cuidar de todo o resto, a gente não precisa fingir uma cena. a gente se aconchega nas dores um do outro, se permite simplesmente adormecer, conta dos sonhos bizarros, se apoia na vigília das tosses, se deixa inebriar com os "aromas" matinais. Sexo? Sim, rola. Com tudo isso de tempero. Porque performance não desperta paixão. Desperta curiosidade, admiração, deslumbre. O que mantém amor é exatamente estar em paz com o "feio". A camiseta furada, de gola esgarçada, amarelada, impregnada, pode não ser propriamente afrodisíaca. Mas estaria mentindo se dissesse que não me faz olhar pra nós (todos os 4) e sentir um amor imenso.