sábado, 19 de setembro de 2026

pijama de camiseta velha

A maior intimidade não é o sexo. É dormir junto. É o ponto mais vulnerável, quando você viaja pra dentro e não tem controle do que acontece do lado de fora de si mesma.


Lembro de ter essa conversa quando conheci meu marido. Eu vinha tendo sonhos exorcisantes de relacionamentos tóxicos, mas ele me dava tanta segurança de habitar minha própria pele e liberdade de lidar com minhas sombras, que encarei aquele aconchego como um ponto de proteção.

Quase 20 anos depois, grandes outros pontos de vulnerabilidade foram sendo compartilhados. E, mesmo quando o relacionamento está morno, insoso, até com enormes lacunas entre nós, essa intimidade se mantém.

Mas numa era de intensa performance, ainda tem gente que acha que até a intimidade precisa ser teatral. pijamas de cetim, roupa de cama de fios infinitos, muita firula só pra poder tirar tudo do lugar.

Aqui, a gente segue usando os lençóis que temos. Limpos, cheirosos, e ainda sim cheios de manchas das noites em que as gêmeas dormiam conosco (e muitas intercorrências resolvidas no colo mútuo). Os pijamas? Camisetas velhas que um dia já foram presentes de viagens, mas que, enquanto eu pendurava no varal, senti um arrepio bom de intimidade. É que, quando vamos pra cama, exaustos, depois de lidar com suas próprias questões, manter a dignidade da casa e se revezando entre cuidado com elas e as poucas horas "livres" graças a escolinha pra cuidar de todo o resto, a gente não precisa fingir uma cena. a gente se aconchega nas dores um do outro, se permite simplesmente adormecer, conta dos sonhos bizarros, se apoia na vigília das tosses, se deixa inebriar com os "aromas" matinais. Sexo? Sim, rola. Com tudo isso de tempero. Porque performance não desperta paixão. Desperta curiosidade, admiração, deslumbre. O que mantém amor é exatamente estar em paz com o "feio". A camiseta furada, de gola esgarçada, amarelada, impregnada, pode não ser propriamente afrodisíaca. Mas estaria mentindo se dissesse que não me faz olhar pra nós (todos os 4) e sentir um amor imenso.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

laudada

 o laudo de superdotação acabou com a minha vida...


acabou com uma vida de desculpas, de que eu não estava nos lugares errados, convivendo com gente medíocre. eu é que funcionava diferente e não precisava ser tão arrogante assim.

acabou com a sensação de que eu não me dedicava a nada, que sempre queria estudar coisas diferentes, investigar origens e estruturas, mesmo que eu nunca usasse aquela informação pra coisas "produtivas". 

acabou com a dúvida se aquele tanto de pensamentos diversos que se alinhavam de maneiras improváveis aconteciam na cabeça de todo mundo, ou eu era realmente uma aberração.

acabou com a solidão que eu sentia em todo lugar, porque, mesmo entre vários neurosivergentes na família ainda sim eu era a ovelha negra que, como disse a Carmen, era esnobe demais por entender que o mundo estava, sim, ao meu alcance.

acabou com a paranóia de auto-sabotagem, porque era difícil parar num emrpego por mais de 6 meses, porque entendi que era mais sobre tédio do que conforto. trabalhar por projetos pode ser gatilho pra ansiedade em alguns, mas pra mim era a garantia de empolgação e recomeços.

acabou com a possibilidade de eu me culpar por ter idéias malucas, por não saber explicar como cheguei àquele resultado, por sentir o peso do mundo porque a cada página que eu leio, abro mais 3 abas na minha cabeça.

acabou com a briga digna de condomínio de classe emergente que eram as vozes da minha cabeça, por que, sim, Diertidamente 2 foi inspirado por elas, só pode...

acabou por me dar a resposta que mais me tirou o sono de todas as perguntas perturbadoras que meu terapeuta já fez: não tem vantagem nenhuma em me apegar aos parâmetros que me trouxeram até aqui. e sim, o laudo acabou com as desculpas e as dúvidas. agora eu sei diferenciar o que é do hardware e o que é do software.

eu não sou mais inteligente. só concateno idéias de um jeito mais rpaído e diverso que a maioria. e exatamente por isso, acabou a era da Lary arrogante sem saber o porquê. porque eu sou melhor em muita coisa, sim, mas sigo frágil (like a bomb, not a flower), perdida e sobrecarregada.

ainda não acabou.

(imagem gerada pelo ChatGPT, porque não basta fazer terapia eu preciso materializar os insights. As 7 Larys são em sentido horário começando pela de branco: a original sem rótulo, a Amiga que pra tudo tem uma frase de duplo sentido, a consultora de negócios que faz as pazes entre o RH e o MKT, a baliarina que transforma em movimento o que não encontra palavras, a criatica que faz da semiótica ferramenta de comunicação, a mística que pra tudo tem um chá, a professora que aprendeu que o Universo é o Algoritmo perfeito.)


quarta-feira, 3 de junho de 2026

pessoa e persona

numa mesma semana, cada um com a fala própria do sei viés, recebi a mesma pergunta do terapeuta holístico, a estrategista de marca, a mentora de negócios, o sócio da vida e até a coach de corrida.

qual a distância entre a pessoa e as personas que você performa?

essa não é uma pergunta que chega a me assustar ou incomodar. mas dessa vez me causou pânico. é que  cada persona que compõem essa Lary precisavam de algo que impedia a outra de agir. a mãe não estava propriamente presente no parquinho com o computador aberto e uma duzia de abas na cabeça e textos pra serem lidos, analisados e encaixados na tese, mas a pequisadora também não estava plena já que a cada parágrafo queria um adendo ao editorial de conteúdo digital. a comida era feita com um curso online que eu prometi que montaria uma palestra especial, mas perdi o timing porque a mulher está exausta e no "5min de joginho só pra relaxar" já arrumou mais uma culpa porque há anos não faz um exercício decente.

estou me recuperando de um terceiro burnout, a beira da falência financeira, em crise de fibromialgia, totalmente descontrolada pela perimenopausa, com um diagnóstico de neurodivergência. o marido tá carente, as meninas eufóricas e belicosas, a casa de pernas pro ar, o whatsapp tem quase 100 conversas não lidas que eu deixei pra responder depois. o mestrado com entregas acumuladas e atrasadas, o plano de negócios em versões diferentes que só aumentam a confusão quando abro a câmera pra gravar reels.

e eu sei que, quanto mais distante estão as personas, maior é o esforço pra manter a coerência. ouvi que uma corrente tem a força do seu elo mais fraco. o abismo é enorme entre cada uma. e numa análise pós terapia, fui perceber que cada persona só existe no outro. e veio mais uma pergunta determinante: e qual é o espaço pra mim mesma?

fui mergulhar fundo nessa questão, mas se o meu raso já é fundo pra muita gente, imagina a zona abissal que eu entrei na minha cabeça. e quando eu submergi, consigo, sim, ver todas as personas pairando sobre esse mar revolto. e se eu escolher uma delas, e as outras não conseguirem seguir e acompanhar?

mas, como diz a Dido, eu vou afundar com esse navio e não vou me render. não vai ter bandeira branca, porque vivo apaixonada, e sempre estarei. só tenho que lembrar o porquê.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

unhas escarlate

quando eu era criança, a casa da minha avó Luzia era uma viagem a outra dimensão. aquela senhorinha de 1,40m comandava a casa com energia lá em cima, e não tinha quem ousasse contrariá-la, nem segurar o riso com seus trocadilhos.

era um contraste enorme com a dona Lulu que visitava a gente em Patos. a gente nunca sabia quando ela estava dormindo ou meditando, com os olhos sempre fechados e piscantes, sob o sol, no sofá, por horas.

quando adulta, fui conhecendo outras versões, menos amáveis e divertidas, mas igualmente contrastantes e intensas. meu sonho era ter as unhas escarlate que ela ostentava sempre, mesmo na lida da casa, até o último suspiro. hora de madame, hora de fera. mas sempre escarlate.  pouco a pouco a versão voraz foi dando lugar à quietude, à melancolia. perdeu filhos, perdeu o marido, perdeu o brilho.

o esmalte resistia, mais pela falta de atrito do que pela vaidade. parecia criar raízes no sofá. não como a flor gentil e contemplativa que frequentava a casa dos meus pais nas férias. agora era algo meio mais ou menos. 

sempre que pude, depois das gêmeas, ia visitá-la. e ela sempre perguntava: são suas filhas? sim, vovó, e uma delas tem o nome da sua irmã. ela respoidia "ó!" alegrinha, depois piscava, como se tivesse ido dar um passeio em memórias que nunca conheci.

da última vez que nos vimos, a cena se repetia, com grande alegria, e as meninas, já entendendo a situação, se divertiam e já se apresentavam: eu tenho o nome da sua irmã, a minha irmã tem o nome que a outra bisa deu. era aniversário de alguém, acho, a casa estava cheia como nos tempos áureos. estava ao lado dela e, orando pra almoçar como de costume, ouvi a voz do meu avô, falecido há alguns anos, sussurrar com a voz grave e embolada inconfundível "dai pão a quem tem fome, e fome de justiça a quem tem pão". ela quase não comeou, mas não parava de sorrir. depois da sobremesa, ouvi alguém sugerir levá-la pro sofá, longe da algazarra, e ela disse "não, eu já fico tempo demais no silêncio, deixa!".


duas semanas depois, ela pediu pra se deitar depois do jantar. banho tomado, unhas recém feitas, alimentada. e por lá ficou. no caixão, não pude deixar de notar que as unhas estavam impecáveis. e ela finalmente estava na meditação eterna ao brilho do sol através das árvores.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

De repente

Sabe quando todas as mudanças acontecem de uma vez só? Trabalho, relacionamento, projetos pessoais, aquela viagem, até seu metabolismo.
De repente pra quem tá distante - afetivamente, isso não tem a ver com geografia.Quem tá ali do seu lado, ainda que do outro lado do oceano, te abraça em silêncio, arruma tempo pra um café só pra te ouvir contar numa cara de zero novidades e 100% de empolgação, abre um vinho só pra se jogarem no sofá e deixar chover hipóteses.
E é nessa intimidade preciosa, que a gente olha pros lados, olha pra trás e percebe que esse "de repente" demorou anos. Ás vezes uma vida inteira.
E que só deu certo porque chegou a hora. Porque você precisou passar por aquela puxada de tapete pra aprender a firmar o pé antes de subir nas tamancas. Porque aquela formação hype não era a que alavancaria sua carreira - afinal você queria só o diploma e não o conhecimento. Porque aquele amor não tava frutificando e você precisou (se) podar pra permitir um novo florescer. Porque é nos vales que descansamos da jornada, e é nele que estão os mais ricos regatos.
E entre um gole e outro daquele vinho, você se dá conta de que o "de repente" aconteceu todo dia. Que cada lágrima lavou sua alma, que o joelho no chão fortaleceu sua caminhada. Que a dor te fez olhar pra dentro. Que o "não" era livramento.
E aí, de repente, bate um pequeno pânico: como é que eu vou dar conta de tudo? E, se você entendeu direitinho, você lembra de tudo que já fez, e que só precisa deixar o Algoritmo do Universo continuar trabalhando. Você fez por merecer.

Celebre-se!

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

É no escuro que vemos a luz

 Tenho passado por tempos tenebrosos. A bagunça que a casa fica porque as meninas brincam desassistidas enquanto cuido de almoço e quando vão pra escola, me exaure a energia mental pra concatenar tudo que preciso cuidar. A carreira corporativa que foi intencionalmente pausada e que encontrou o empreendedorismo, que se tornou, mais do que uma fonte de renda, suga minha criatividade nas funções comerciais. O casamento que está em consatnte conflito de papéis quando um precisa do colo do outro mas também precisa ser arrimo emocional de todos. Habilidades que são tratadas como mero hobbie por não podermos investir. A rotina que nunca se estabelece, o dnheiro que nunca dá, os projetos que se acumulam na pilha de sonhos. 

Tem vários ditados que falam desse fundo de poço. Tem até uma história de um cavalo que caiu num buraco, e por misericórdia o dono resolveu interrá-lo, mas quanto mais terra jogavam nene, mas o cavalo se sacudia e usava a terra pra sair dali. Falam em luz no fim do tunel. A TV ligada sem audiência atenta me fez lembrar  de quando estava na Times Square, em que havia tanto letreiro que não percebi que a noite havia caído, chovia derretendo a neve enlameada, as pessoas se agasalhavam mas não paravam de comprar bugingangas. Eu estava ouvindo no fone "Sound of Silence", e percebi que é um lamento a esse consumismo. A música diz que estamos tão atônitos cultuando o deus de neon que criamos que falamos sem se comunicar, que escutam sem se conectar, escrevemos músicas que ninguém canta.

Coloquei o disco do Disturbed - porque até pra sentir as coisas, a gente desaprendeu o caminho natural, e passou a rejeitar os extremos, sejam da paixão ou da fúria. "A escuridão pode te mostrar luz".

E eu acolhi essa frase com toda a tristeza, cansaço, pensamentos intrusivos e escuridão do coração. Eu já vivi, sim, situaçoes muito piores. Mas ser mãe me trouxe uma urgência insana - literalmente, dessas que precisavam ser acompanhadas por psiquiatra - em ter as coisas alegres, leves, acolhedoras, seguras. Olho elas fazendo malabarismos com tanta desenvoltura pela sala, e choro por dentro porque bancar um esporte exige recursos que não temos. Olho paisagens que nçao posso simplesmente pegar o carro e ir visitar - ou que só preciso de mais recursos emocionais do que tenho pra planejar um simples picnic. Desinstalei apps de compras porque me turtura ver promoções das roupas que eu adoraria vestir em palestras e nas reuniões empresariais em que as éssoas me pagam pra dar opinião em como lidar com as pessoas, processos e mercado.

Desse ponto da escuridão, só quero ficar de olhos fechados. Não ouso interromper o som do silêncio. Porque daqui a pouco elas vão chegar cheias de alegria, carências e sonhos, e não vai caber mais essa tristeza.

domingo, 19 de janeiro de 2025

cabeleira (você aguenta o processo?)

 meu cabelo foi sempre... digamos... notável!

geneticamente, a juba encaracolada vem do meu pai, que cuidava com carinho fazendo rabo-de-cavalo com requintes de plástica de tão bem puxado, cuidadosamente finalizado com tranças bem presas. "pra não armar", dizia ele, encantado. fiz escova pouquíssimas vezes, e ele me arrastava pra chuveiro e dizia que não era pra mudar quem eu era. mas quando precisei, pra uma apresentação de dança, foi ele quem me ensinou a "rodar touca".

na família da minha mãe, o auto-cuidado era restrito à saúde física e emocional, ao desenvolvimento intlectual e espiritual, à melhoria profissional e expressão artística. o orgulho das rugas causadas por gargalhadas era enorme, e a vaidade era quase irrelevante, embora, ironocamente, todas pintaram os cabelos pra além dos 60 anos de idade.

quando fui pra faculdade, comecei a me questionar sobre a conexão entre estética e identidade. éramos 20 meninas na turma, eu era a única cacheada - mesmo sendo 6 delas negras. elas fizeram uma vaquinha de aniversário, pra que eu entrasse pra química, e percebi o quanto meu amor próprio estava sucumbindo á pressão e referência externas. usei o dinheiro pra, pela primeira vez, um especialista cuidar dos meus cachos, e cortei curtinho.

aí conheci meu marido. e mesmo com o meio pote de creme pra manter oa cachos em ordem, ele enfiou os dedos passando pelo pescoço e orelhas, sacudiu minha juba e falou "agora sim! tem que hostentar!" e me lembro de ficar parada ali na calçada uns 5seg me dando conta de que aquele cara que eu conhecia há menos de uma semana merecia o resto dos meus dias. começou a fazer sentido que cuidar de mim nada tinha a ver com fingir ser outra pessoa. com a maternidade, precisei adaptar meu cabelo pra aliviar a rotina de auto-cuidado e ainda valorizar a mulher mais dinâmica, resiliente, criativa que aquela jornada me transformara. e conheci, encantada, nas horas de salão, histórias de mulheres que estavam há anos em diferentes transições pra assumir sua beleza natural.


e é claro que isso não tem a ver (só) com com os padrões estéticos femininos que questionei. mas principalmente com as rotinas necessárias pra se conectar com nossa essência, bancar os processos necessários pra isso e saber celebrar-se.


nos meus processos de consultoria, sempre convido a cliente a uma viagem na sua própria biografia. certa vez, uma me perguntou "desde qual fase da minha vida faz sentido falarmos aqui?" e ao final da sessão ela entendia o quanto a menininha que ela havia sido (silenciada ou exaltada) se conectava com suas questões atuais e realizações profissionais. só então é que traçamos um plano de ação e elencar as ferramentas necessárias pra alcançar o real objetivo (que, não raro, é diferente do que nos conectou). são semanas de muito bate papo, busca e aplicação de conceitos e fórmulas normalmente vendidas como prontas, mas que sendo entendidas e personalizadas, não são abandonadas nas primeiras dificuldades, e dali a poucos meses já pe possível sentir o copo cheio.

a marca pessoal nunca foi sobre carreira. é sobre valor próprio. é entender que não dá pra acordar e por a cara no mundo de qualquer jeito, é preciso atenção e intenção, rotinas cabíveis de auto-consciência, estratégia e adaptação à diferentes realidades e momentos.


olhe pra si agora. tire os olhos da tela e olhe-se, de verdade. sem julgamentos, só olhe. reconheça a menina descabelada, a adolescente rebelde, a jovem questionadora, a mulher que desafia. feche os olhos e imagine a senhora serena de si mesma que olha pra você e diz: seja.

(ah, e se quer entender como briblar mesmo os bad hair days da vida, me chama pra dois dedin de prosa!)