sexta-feira, 26 de junho de 2026

laudada

 o laudo de superdotação acabou com a minha vida...


acabou com uma vida de desculpas, de que eu não estava nos lugares errados, convivendo com gente medíocre. eu é que funcionava diferente e não precisava ser tão arrogante assim.

acabou com a sensação de que eu não me dedicava a nada, que sempre queria estudar coisas diferentes, investigar origens e estruturas, mesmo que eu nunca usasse aquela informação pra coisas "produtivas". 

acabou com a dúvida se aquele tanto de pensamentos diversos que se alinhavam de maneiras improváveis aconteciam na cabeça de todo mundo, ou eu era realmente uma aberração.

acabou com a solidão que eu sentia em todo lugar, porque, mesmo entre vários neurosivergentes na família ainda sim eu era a ovelha negra que, como disse a Carmen, era esnobe demais por entender que o mundo estava, sim, ao meu alcance.

acabou com a paranóia de auto-sabotagem, porque era difícil parar num emrpego por mais de 6 meses, porque entendi que era mais sobre tédio do que conforto. trabalhar por projetos pode ser gatilho pra ansiedade em alguns, mas pra mim era a garantia de empolgação e recomeços.

acabou com a possibilidade de eu me culpar por ter idéias malucas, por não saber explicar como cheguei àquele resultado, por sentir o peso do mundo porque a cada página que eu leio, abro mais 3 abas na minha cabeça.

acabou com a briga digna de condomínio de classe emergente que eram as vozes da minha cabeça, por que, sim, Diertidamente 2 foi inspirado por elas, só pode...

acabou por me dar a resposta que mais me tirou o sono de todas as perguntas perturbadoras que meu terapeuta já fez: não tem vantagem nenhuma em me apegar aos parâmetros que me trouxeram até aqui. e sim, o laudo acabou com as desculpas e as dúvidas. agora eu sei diferenciar o que é do hardware e o que é do software.

eu não sou mais inteligente. só concateno idéias de um jeito mais rpaído e diverso que a maioria. e exatamente por isso, acabou a era da Lary arrogante sem saber o porquê. porque eu sou melhor em muita coisa, sim, mas sigo frágil (like a bomb, not a flower), perdida e sobrecarregada.

ainda não acabou.

(imagem gerada pelo ChatGPT, porque não basta fazer terapia eu preciso materializar os insights. As 7 Larys são em sentido horário começando pela de branco: a original sem rótulo, a Amiga que pra tudo tem uma frase de duplo sentido, a consultora de negócios que faz as pazes entre o RH e o MKT, a baliarina que transforma em movimento o que não encontra palavras, a criatica que faz da semiótica ferramenta de comunicação, a mística que pra tudo tem um chá, a professora que aprendeu que o Universo é o Algoritmo perfeito.)


quarta-feira, 3 de junho de 2026

pessoa e persona

numa mesma semana, cada um com a fala própria do sei viés, recebi a mesma pergunta do terapeuta holístico, a estrategista de marca, a mentora de negócios, o sócio da vida e até a coach de corrida.

qual a distância entre a pessoa e as personas que você performa?

essa não é uma pergunta que chega a me assustar ou incomodar. mas dessa vez me causou pânico. é que  cada persona que compõem essa Lary precisavam de algo que impedia a outra de agir. a mãe não estava propriamente presente no parquinho com o computador aberto e uma duzia de abas na cabeça e textos pra serem lidos, analisados e encaixados na tese, mas a pequisadora também não estava plena já que a cada parágrafo queria um adendo ao editorial de conteúdo digital. a comida era feita com um curso online que eu prometi que montaria uma palestra especial, mas perdi o timing porque a mulher está exausta e no "5min de joginho só pra relaxar" já arrumou mais uma culpa porque há anos não faz um exercício decente.

estou me recuperando de um terceiro burnout, a beira da falência financeira, em crise de fibromialgia, totalmente descontrolada pela perimenopausa, com um diagnóstico de neurodivergência. o marido tá carente, as meninas eufóricas e belicosas, a casa de pernas pro ar, o whatsapp tem quase 100 conversas não lidas que eu deixei pra responder depois. o mestrado com entregas acumuladas e atrasadas, o plano de negócios em versões diferentes que só aumentam a confusão quando abro a câmera pra gravar reels.

e eu sei que, quanto mais distante estão as personas, maior é o esforço pra manter a coerência. ouvi que uma corrente tem a força do seu elo mais fraco. o abismo é enorme entre cada uma. e numa análise pós terapia, fui perceber que cada persona só existe no outro. e veio mais uma pergunta determinante: e qual é o espaço pra mim mesma?

fui mergulhar fundo nessa questão, mas se o meu raso já é fundo pra muita gente, imagina a zona abissal que eu entrei na minha cabeça. e quando eu submergi, consigo, sim, ver todas as personas pairando sobre esse mar revolto. e se eu escolher uma delas, e as outras não conseguirem seguir e acompanhar?

mas, como diz a Dido, eu vou afundar com esse navio e não vou me render. não vai ter bandeira branca, porque vivo apaixonada, e sempre estarei. só tenho que lembrar o porquê.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

unhas escarlate

quando eu era criança, a casa da minha avó Luzia era uma viagem a outra dimensão. aquela senhorinha de 1,40m comandava a casa com energia lá em cima, e não tinha quem ousasse contrariá-la, nem segurar o riso com seus trocadilhos.

era um contraste enorme com a dona Lulu que visitava a gente em Patos. a gente nunca sabia quando ela estava dormindo ou meditando, com os olhos sempre fechados e piscantes, sob o sol, no sofá, por horas.

quando adulta, fui conhecendo outras versões, menos amáveis e divertidas, mas igualmente contrastantes e intensas. meu sonho era ter as unhas escarlate que ela ostentava sempre, mesmo na lida da casa, até o último suspiro. hora de madame, hora de fera. mas sempre escarlate.  pouco a pouco a versão voraz foi dando lugar à quietude, à melancolia. perdeu filhos, perdeu o marido, perdeu o brilho.

o esmalte resistia, mais pela falta de atrito do que pela vaidade. parecia criar raízes no sofá. não como a flor gentil e contemplativa que frequentava a casa dos meus pais nas férias. agora era algo meio mais ou menos. 

sempre que pude, depois das gêmeas, ia visitá-la. e ela sempre perguntava: são suas filhas? sim, vovó, e uma delas tem o nome da sua irmã. ela respoidia "ó!" alegrinha, depois piscava, como se tivesse ido dar um passeio em memórias que nunca conheci.

da última vez que nos vimos, a cena se repetia, com grande alegria, e as meninas, já entendendo a situação, se divertiam e já se apresentavam: eu tenho o nome da sua irmã, a minha irmã tem o nome que a outra bisa deu. era aniversário de alguém, acho, a casa estava cheia como nos tempos áureos. estava ao lado dela e, orando pra almoçar como de costume, ouvi a voz do meu avô, falecido há alguns anos, sussurrar com a voz grave e embolada inconfundível "dai pão a quem tem fome, e fome de justiça a quem tem pão". ela quase não comeou, mas não parava de sorrir. depois da sobremesa, ouvi alguém sugerir levá-la pro sofá, longe da algazarra, e ela disse "não, eu já fico tempo demais no silêncio, deixa!".


duas semanas depois, ela pediu pra se deitar depois do jantar. banho tomado, unhas recém feitas, alimentada. e por lá ficou. no caixão, não pude deixar de notar que as unhas estavam impecáveis. e ela finalmente estava na meditação eterna ao brilho do sol através das árvores.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

De repente

Sabe quando todas as mudanças acontecem de uma vez só? Trabalho, relacionamento, projetos pessoais, aquela viagem, até seu metabolismo.
De repente pra quem tá distante - afetivamente, isso não tem a ver com geografia.Quem tá ali do seu lado, ainda que do outro lado do oceano, te abraça em silêncio, arruma tempo pra um café só pra te ouvir contar numa cara de zero novidades e 100% de empolgação, abre um vinho só pra se jogarem no sofá e deixar chover hipóteses.
E é nessa intimidade preciosa, que a gente olha pros lados, olha pra trás e percebe que esse "de repente" demorou anos. Ás vezes uma vida inteira.
E que só deu certo porque chegou a hora. Porque você precisou passar por aquela puxada de tapete pra aprender a firmar o pé antes de subir nas tamancas. Porque aquela formação hype não era a que alavancaria sua carreira - afinal você queria só o diploma e não o conhecimento. Porque aquele amor não tava frutificando e você precisou (se) podar pra permitir um novo florescer. Porque é nos vales que descansamos da jornada, e é nele que estão os mais ricos regatos.
E entre um gole e outro daquele vinho, você se dá conta de que o "de repente" aconteceu todo dia. Que cada lágrima lavou sua alma, que o joelho no chão fortaleceu sua caminhada. Que a dor te fez olhar pra dentro. Que o "não" era livramento.
E aí, de repente, bate um pequeno pânico: como é que eu vou dar conta de tudo? E, se você entendeu direitinho, você lembra de tudo que já fez, e que só precisa deixar o Algoritmo do Universo continuar trabalhando. Você fez por merecer.

Celebre-se!

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

É no escuro que vemos a luz

 Tenho passado por tempos tenebrosos. A bagunça que a casa fica porque as meninas brincam desassistidas enquanto cuido de almoço e quando vão pra escola, me exaure a energia mental pra concatenar tudo que preciso cuidar. A carreira corporativa que foi intencionalmente pausada e que encontrou o empreendedorismo, que se tornou, mais do que uma fonte de renda, suga minha criatividade nas funções comerciais. O casamento que está em consatnte conflito de papéis quando um precisa do colo do outro mas também precisa ser arrimo emocional de todos. Habilidades que são tratadas como mero hobbie por não podermos investir. A rotina que nunca se estabelece, o dnheiro que nunca dá, os projetos que se acumulam na pilha de sonhos. 

Tem vários ditados que falam desse fundo de poço. Tem até uma história de um cavalo que caiu num buraco, e por misericórdia o dono resolveu interrá-lo, mas quanto mais terra jogavam nene, mas o cavalo se sacudia e usava a terra pra sair dali. Falam em luz no fim do tunel. A TV ligada sem audiência atenta me fez lembrar  de quando estava na Times Square, em que havia tanto letreiro que não percebi que a noite havia caído, chovia derretendo a neve enlameada, as pessoas se agasalhavam mas não paravam de comprar bugingangas. Eu estava ouvindo no fone "Sound of Silence", e percebi que é um lamento a esse consumismo. A música diz que estamos tão atônitos cultuando o deus de neon que criamos que falamos sem se comunicar, que escutam sem se conectar, escrevemos músicas que ninguém canta.

Coloquei o disco do Disturbed - porque até pra sentir as coisas, a gente desaprendeu o caminho natural, e passou a rejeitar os extremos, sejam da paixão ou da fúria. "A escuridão pode te mostrar luz".

E eu acolhi essa frase com toda a tristeza, cansaço, pensamentos intrusivos e escuridão do coração. Eu já vivi, sim, situaçoes muito piores. Mas ser mãe me trouxe uma urgência insana - literalmente, dessas que precisavam ser acompanhadas por psiquiatra - em ter as coisas alegres, leves, acolhedoras, seguras. Olho elas fazendo malabarismos com tanta desenvoltura pela sala, e choro por dentro porque bancar um esporte exige recursos que não temos. Olho paisagens que nçao posso simplesmente pegar o carro e ir visitar - ou que só preciso de mais recursos emocionais do que tenho pra planejar um simples picnic. Desinstalei apps de compras porque me turtura ver promoções das roupas que eu adoraria vestir em palestras e nas reuniões empresariais em que as éssoas me pagam pra dar opinião em como lidar com as pessoas, processos e mercado.

Desse ponto da escuridão, só quero ficar de olhos fechados. Não ouso interromper o som do silêncio. Porque daqui a pouco elas vão chegar cheias de alegria, carências e sonhos, e não vai caber mais essa tristeza.

domingo, 19 de janeiro de 2025

cabeleira (você aguenta o processo?)

 meu cabelo foi sempre... digamos... notável!

geneticamente, a juba encaracolada vem do meu pai, que cuidava com carinho fazendo rabo-de-cavalo com requintes de plástica de tão bem puxado, cuidadosamente finalizado com tranças bem presas. "pra não armar", dizia ele, encantado. fiz escova pouquíssimas vezes, e ele me arrastava pra chuveiro e dizia que não era pra mudar quem eu era. mas quando precisei, pra uma apresentação de dança, foi ele quem me ensinou a "rodar touca".

na família da minha mãe, o auto-cuidado era restrito à saúde física e emocional, ao desenvolvimento intlectual e espiritual, à melhoria profissional e expressão artística. o orgulho das rugas causadas por gargalhadas era enorme, e a vaidade era quase irrelevante, embora, ironocamente, todas pintaram os cabelos pra além dos 60 anos de idade.

quando fui pra faculdade, comecei a me questionar sobre a conexão entre estética e identidade. éramos 20 meninas na turma, eu era a única cacheada - mesmo sendo 6 delas negras. elas fizeram uma vaquinha de aniversário, pra que eu entrasse pra química, e percebi o quanto meu amor próprio estava sucumbindo á pressão e referência externas. usei o dinheiro pra, pela primeira vez, um especialista cuidar dos meus cachos, e cortei curtinho.

aí conheci meu marido. e mesmo com o meio pote de creme pra manter oa cachos em ordem, ele enfiou os dedos passando pelo pescoço e orelhas, sacudiu minha juba e falou "agora sim! tem que hostentar!" e me lembro de ficar parada ali na calçada uns 5seg me dando conta de que aquele cara que eu conhecia há menos de uma semana merecia o resto dos meus dias. começou a fazer sentido que cuidar de mim nada tinha a ver com fingir ser outra pessoa. com a maternidade, precisei adaptar meu cabelo pra aliviar a rotina de auto-cuidado e ainda valorizar a mulher mais dinâmica, resiliente, criativa que aquela jornada me transformara. e conheci, encantada, nas horas de salão, histórias de mulheres que estavam há anos em diferentes transições pra assumir sua beleza natural.


e é claro que isso não tem a ver (só) com com os padrões estéticos femininos que questionei. mas principalmente com as rotinas necessárias pra se conectar com nossa essência, bancar os processos necessários pra isso e saber celebrar-se.


nos meus processos de consultoria, sempre convido a cliente a uma viagem na sua própria biografia. certa vez, uma me perguntou "desde qual fase da minha vida faz sentido falarmos aqui?" e ao final da sessão ela entendia o quanto a menininha que ela havia sido (silenciada ou exaltada) se conectava com suas questões atuais e realizações profissionais. só então é que traçamos um plano de ação e elencar as ferramentas necessárias pra alcançar o real objetivo (que, não raro, é diferente do que nos conectou). são semanas de muito bate papo, busca e aplicação de conceitos e fórmulas normalmente vendidas como prontas, mas que sendo entendidas e personalizadas, não são abandonadas nas primeiras dificuldades, e dali a poucos meses já pe possível sentir o copo cheio.

a marca pessoal nunca foi sobre carreira. é sobre valor próprio. é entender que não dá pra acordar e por a cara no mundo de qualquer jeito, é preciso atenção e intenção, rotinas cabíveis de auto-consciência, estratégia e adaptação à diferentes realidades e momentos.


olhe pra si agora. tire os olhos da tela e olhe-se, de verdade. sem julgamentos, só olhe. reconheça a menina descabelada, a adolescente rebelde, a jovem questionadora, a mulher que desafia. feche os olhos e imagine a senhora serena de si mesma que olha pra você e diz: seja.

(ah, e se quer entender como briblar mesmo os bad hair days da vida, me chama pra dois dedin de prosa!)

domingo, 11 de agosto de 2024

pais (o meu e o delas)

o colo do meu pai era severo, mas que não precisa de grandes explicações pra ser meu maior ninho. o colo do pai delas é cheio de gargalhadas e auto-entendimento, despretenciosamente.


com meu pai aprendi que princesas são diplomatas e amazonas, e não seres indefesos a espera de um resgate - afinal, meu castelo já era de vida e amor. com o pai delas eu aprendi que sou ogrinha e também absolutamente frágil, e juntos somos mais fortes pra criar princesas melhores do que eu fui. com meu pai eu criei gosto pela ordem das coisas - de gavetas a louça na pia - que me deram estrutura profissional e retidão nas relações. com o pai delas encontrei as delícias da preguicite no sofá, de se embrenhar numa trilha desconhecida, da criatividade caórdica que me deu liberdade de escrever e sonhar. com meu pai era fácil fazer a gargalhada ecoar, ter meu nome conhecido em qualquer roda, de não ter medo de me impor e expor. com o pai o silêncio é saboroso, ser humilde é uma lição diária, e que ceder às vezes é o único caminho para que possamos vencer juntos.
com meu pai, eu entendi que a força de um homem não invalida a tenacidade da sua companheira, e é no respeito mútuo que os filhos encontram o seu próprio caminho.
com o pai delas, en entendi que sua história de ensina, mas não determina seu caráter, e que a grandiosidade de está no amor pela vida que borbulha.
com esses dois, eu aprendi a ser quem eu sou. escolhi a ambos, em diferentes esferas. e fui amada, cada um a sua maneira, pra que eu pudesse dar às minhas filhas toda a dignidade, realeza e sabedoria que ambos me deram - como filha e esposa. AMO VOCÊS!

domingo, 21 de julho de 2024

O que café e branding tem em comum?

 Primeiro, vamos entender o que diferencia esse barrinho adoçado desse chá-fé: o “extra-forte” não significa sabor intenso, mas que pra mascarar impurezas e baixa qualidade dos grãos, passa por torra excessiva e o amargor pede muito açucar pra se tornar bebível.

Já o gourmet tem essa conotação de esnobe, mas saber que só tem café mesmo e com diferentes graus de torra abrem uma possibilidade enorme de extrações e aromas - e não amarga!

Eu vejo pessoas e marcas exatamente assim: aqui, tem aquele que nunca buscou entender seus fundamentos, que se contamina com tanta interferência externa, e pra entrar num padrão de mercado, acaba se queimando, e vai precisar de muitos artifícios pra se tornar agradável. De cá, uma identidade bem definida, que se adapta à demanda e cria possibilidades memoráveis.

Agora, cê sabe qual o preço deles na gôndola do supermercado? Acredite, não é tão diferente assim. A maior diferença: o primeiro vai sempre te dar azia…


Então, vai um BOM café aí?

pão é pão

 pão será sempre pão. dependendo do contexto histórico, uma receita diferente. conforme o país, um nome específico. dependendo da família, um jeito de ser consumido. mas pão será sempre pão.

e isso não é sobre pão.

responder à pergunta "qual é sua religião" me trazia uma série de questionamentos internos. e antes que atirem a primeira pedra ou comecem as pregações, isso não é uma discussão sobre credos.

eu nasci num contexto bem sincrético. batizada católica e sempre às voltas com grupos de oração, meu lugar favorito no mundo era a biblioteca cheia de símbolos e livros místicos da minha madrinha, e amava passar as férias ouvindo meu avô que era médium espírita. filmes de bruxaria e ocultismo eram documentários com licença poética e não mero entretenimento. minhas edições favoritas da Superinteresante eram as de civilizações antigas e seus cultos sobrenaturais. traduzi um livro de umbanda. na minha mesa tem cristais e um buda, e na entrada do escritório ficam o anjinho da guarda e um filtro dos sonhos. já recitei o terço mentalizando "ohm" ao invés de ave-maria. "Alice dentro do espelho" me mostrou a face de Deus no Tempo. eu plantei a lua como um pedido à Gaia para engravidar (e funcionou de primeira). minha feminismo luta por equidade por causa de uma PhD em comida. minhas melhores clientes são evangélicas. já convenci ateus de que o Algoritmo do Universo é que rege cada milagre das nossas vidas. 

mas minha espiritualidade nunca foi dúbia. desde o útero (ou talvez muito antes, dependendo de como você acredita), minha mãe me apresentou o Movimento Focolare. cresci vendo como Chiara Lubich traduziu sua fé dentro da sua expertise acadêmica e construiu discursos, estudos e palestras - além de amizades com grandes líderes das mais diversas denominações religiosas - que traziam o tema Unidade num diálogo construtivo e convergente. na minha cabeça, era mera questão de idioma que nos afastava por causa de interpretações proféticas. literalmente, era apenas o idioma que causava ruído. era absolutamente normal ouvir um africano explicar sobre como professava sua fé e vivia o divino, na mesma mesa que um inglês luterano ou um japonês xantoísta. as diferenças de crença eram meras diferenças de idioma, que tinham sua própria expressão e linguagem, representações e entendimentos. mas todo mundo falava da mesmíssima coisa: somos um com o todo.

daí pra eu me apaixonar por todo tema que envolva linguagens e como usá-la de forma a arrebatar seu público - de seitas religiosas a marcas capitalistas - foi natural. Os vocábulos e simbolismos podem variar - e é isso que vai determinar quem vai te seguir ou te repelir. meu trabalho como estrategista de comunicação é exatamente encontrar qual é o seu brilho, como o sagrado se manifesta em você e traduzir isso pra sua audiência.

então o que era sobre pão, agora você entendeu que não é sobre religião. mas sobra comunicação - que é, etimologicamente, a ação de transformar juntos.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Amo ser mãe, maaas...

 Sempre quis ser mãe. “Aos 30”, pensava eu ainda adolescente, porque sabia da responsabilidade em criar bons alicerces pessoais pra ser “uma boa mãe”. Uma inteção nutrida por 20 anos de muito estudo, convívio e realismo.


Tracei um plano de carreira em volta das limitações conhecidas e um “plano de fuga” pro que é tão individual (e sim, precisei acioná-lo algumas vezes pra não me perder completamente). Sabia que um emprego CLT tinha suas delícias de uma previsibilidade e certa estrutura, mas também via uma expectativa de presença e performance que eram imcompatíveis com a necessidade biológica, neurológica, emocional e social de crianças que tinham seus momentos mais sensíveis e sucetíveis terceirizados (e sim, quanto mais vunlerável a mulher, menor o poder de escolha sobre a qualidade desses cuidadores "secundários"). Empreender era - como uma perfeita lei newtoniana de Ação e Reação - de uma liberdade absurda, que exigiria um comprometimento sobrehumano - e, empiricamente, sabia que a resiliência, a inteligência emocional e muito jogo de cintura seriam indissociáveis com ou sem filhxs.


Hoje atuo transformando histórias em pilar estratégico de marcas pessoais, e organizar dados empresariais que fortalecam cultura e branding.

Ora ora, isso é intrínseco ao cuidado pra que nossas crianças se percebam protagonistas e saibam a riqueza dos seus saberes...


É mortificante lidar com mentoradas que chegam debilitadas emocionalmente, menosprezadas profissionalmente, limitadas afetivamente, porque a maternidade foi “vendida” como (mais) um papel socialmente compulsório que prometia a plenitude existencial, mas que nunca tiveram sequer a liberdade de sonhar - quiçá questionar - caminhos diferentes.

Sim, eu amo ser mãe (assim como amo as gêmeas, fruto e razão de ser dessa vocação) e honro todo o sacro-ofício porque foi uma escolha planejada. Mas não é pra qualquer um.

Minhas filhas precisarão conviver com pessoas que ainda vem de lares silenciados e que só se expressarão na dor, porque ainda existe um enorme tabu na não-maternidade.


É de uma responsabilidade enorme, e com tanta exigência - e negligência - do capitalismo, que requer uma sabedoria enorme enão vejo jamais como uma decisão de egoísmo. Mulheres que repudiam essa escolha devem estar igualmente feridas. Quando uma Larissa Pinta Preta for “desnecessária”, aí sim, teremos paz pra faar sobre novas gerações com mais liberdade e amor incondicional.


Obrigada por me lembrar porque eu amo meu maternar: eu pude escolher!

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

meu coração é de pedra...

mas se engana quem me vê como fria e dura.

sustento, conduzo, enobreço.

me lasco, esfarelo, despedaço.

por mim permeia a liquidez da vida. sou filtro de tanta coisa que as vezes nem se notam as águas que de mim brotam. brilho, mas não sou de enganar tolos. na verdade, meu valor não está em mim, mas pr'aquilo que sirvo.

só sou no outro. senão, apenas poeira. de estrelas.

terça-feira, 9 de junho de 2020

como se fosse da família

 ha semanas temos questionado o status quo de várias questões do nosso dia a dia. o isolamento social como estratégia pra desaceleração do contágio noa fez trocar roupas e sapatos por moletom e pantufas, cursos de produtividade logo apareceram com a convidativa procrastinação no sofa, a disparidade das tarefas domésticas se tornou mais evidente com as crianças também demandando atenção integral entre reunião no zoom que bem que podiam ser emails. passamos a higienizar tudo que entra em casa, serviços de delivery dispararam pq é preciso manter a diversidade nutricional.

mas no começo de março, meu marido e eu decidimos pela nosso retorno temporário da capital pro interior por entendermos a dinâmica nociva das grandes cidades: densidade demográfica e logística. ja explico.

minha cidade natal tem 4 linhas de ônibus, a locomoção é massivamente de bicicleta. mesmo em uberlândia, "capital do cerrado", uma pedalada de 1h incluía ida e volta pra cachoeiras fora da cidade onde dava pra ver as poucas dezenas de prédio no centro comercial. essa era minha dimensão urbana ate 2011, quando me mudei pra SP, e descobri a relação inversamente proporcional entre distância e valor do aluguel. podia gastar $500 numa casinha arejada e 2-3h pra chegar no trabalho, ou $1000 numa kitnet a 30min do escritório. sendo ciclista ativa, achei que economizar no transporte público valeria a pena. eu era a única a não surtar ou sofrer de insônia no trabalho. quando fui morar com marido no RJ, de 2012 a 2017, descobrimos outra realidade urbana: era possível morar a 30min tanto da praia quanto do centro, pagando pouco, mas ao pé das favelas. a influência ia pra além dos bailes que ecoavam madrugada a dentro e o intenso movimento nas ruelas de acesso ao lado do meu prédio. quando um dos "donos do morro" foi morto numa operação policial, todo o comércio fechou em luto solidário. sim, alem da segurança privada e impostos pro estado, todos também contribuíam pra segurança coletiva que eles ofereciam.

administrávamos apartamentos de temporada na Zona Sul e com isso tínhamos uma duzia de faxineiras "a disposição". entre aspas porque era preciso uma engenharia logística não so pra conferir os apês na saída do hospede, trocar o enxoval usado com o da lavanderia e organizar chaves e acessos das limpezas. tanto as faxineiras que moravam nas favelas ali perto quanto as da periferia que demoravam horas pra chegar preferiam fazer 6 serviços de 2h num único dia a ter que se deslocarem mais vezes. sair da favela, dependendo do dia, era um verdadeiro jogo de gato e rato. gastar horas em trens e ônibus lotados num trajeto imprevisível também. eu mesma fiz várias dessas faxinas (as vezes rendiam mais do que a gestão de temporada em si, mas principalmente porque o serviço precisava ser feito). era comum eu passar algumas horas conversando com elas durante o serviço e conheci tanto a limitação de perspectiva pela exaustão, quanto a garra e honestidade entranhadas no ato de servir. muitas se sentiram gratas por serem tratadas como gente quando dividíamos uma marmita decente que eu pagava. pausa.

no RJ aprendi muito sobre a real história da nossa colonização. a cultura escravocrata, a pompa de fachada da elite decadente, a submissão em cadeia imposta de senhores de engenho a feitores e desses a escravos que receberam da Coroa a promessa de moradia pos-Canudos e ocuparam os morros, hoje refletida entre o estado corrupto, o empresário rico e a mão de obra subvalorizada. a aberração arquitetônica das entradas de serviço e os uniformes brancos nos prédios herdados por jovens que vivem do ócio que acham natural serem servidos.

de volta a SP, passei a ter contato co culturas de equidade, pude testemunhar projetos emocionantes de alfabetização e empoderamento das equipes de manutenção, que agradeceram por terem finalmente entendido seu papel como essencial e sensível a percepção do cliente.

mas por mais que SP tenha a formação urbana mais heterogênea, a distância social e física se mantém. meu medo maior de contágio está no fato de um isolamento fajuto onde o zelador continua vindo diariamente pra limpar a piscina do prédio (a compra de uma capa pra interditarem foi descartada, afinal, ja "vai ter que pagar o funcionário de qualquer jeito, deixa ele trabalhando, oras!"). pegar transporte público, interagir com dezenas de transeuntes, se expor ao contágio não é o mais grave. isso a gente também faz a cada ida ao supermercado. o problema é a alienação, a desinformação, as políticas públicas que obrigada os trabalhadores de serviço - da faxineira ao caixa de supermercado - serem tao essenciais na manutenção da sensação de qualidade de vida da classe media-alta quanto uma equipe de saúde em momentos de crise sanitária.

daí nossa decisão de voltar pro interior entra e conflito. numa cidade co menor discrepância social aparente, melhor autonomia de locomoção, a pandemia semostra menos grave. e  alienação é fator comum a todos. a realidade do isolamento definitivamente acompanha da qualidade da cultura e da diversidade no ritmo pacato das cadeiras na calada ao fim da tarde, e com isso encontramos a única homogeneidade: estamos tão desconexos do todo que manter o conforto individual supera em absoluto olhar ao próximo com ais empatia. faz parte da família tradicional brasileira se achar superior, imune, privilegiado.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Sensível

É hilário observar pessoas que comem escutando música e respondendo whatsapp ao mesmo tempo, que cruzam ruas assistindo filmes e se acotovelam no metrô comseus livros sem se darem conta da movimentação ao edor.
Por outro lado é deprimente perceber oisolamento das pessoas e o estranhamento com demonstrações públicas de afeto - e digo com o mero abraço ou uma gargalhada - da falta de senso de direção, coletivo ou responsabilidade, de tamanha indiferença e arrogânciaque blindam nossa capacidade de empatia.

Nos acostumamos a acariciar a tela dos nossos smartphones apreciando silenciosamente a vida alheia recheada de filtros e citações, eperdemos o tato com as relações cotidianas que são notoriamente ais etéreas, descartáveis, rasas.

Nos isolamos em fones de ouvido e repudiamos os sons naturais do nosso corpo, nos irritamos com o som da cidade, recriminamos o choro de uma criança e afogamos em baladas cada vez mais altas que substituem o diálogo.

A gente se atordoa com os jornais, maratona séries e mede relevância por stories, e já não sabemos mais dialogar entre as diferenças políticas, esqueceos como correr suar sem programas mirabolantes ou gadgets ultraconectados, perdemos a capacidade de olhar nos olhos.

Carros cada vez maiores nos isolam do mundo, e com isso não sentimos mais a rua, o vento, a fragilidade da vida. Patinetes elétricos nos economizam vida - não,isso não é uma vantagem. Aviões mais apertados e menos cortesia pra gente ir mais longe e experimentar as mesmas coisas que outros turistas já listaram nas portais de reputação.

Pagamos cada vez mis caros por exclusividade, e ainda mais grana é aplicada em diversificação de fundos e tratamentos halopáticos, mas credo em cruz de precisar pagar por um produto orgânico ou usar seu tempo pra cozinhar o próprio alimento.

Tempo? A gente mede em compromissos, em metas, em likes, em viagens, em atualizações de bens de consumo.

Qual foi a última vez que você se olhou no espelho sem críticas, tomou banho por estr feliz e não pra disfarçar o choro, que acordou antes do despertador porque seu corpo já saciou? Qual a última vez você beijou aquele mesmo alguém por mais de 2min sem se preocupar com o que viria depois? Você se lembra de tter chorado de rir esse ano? Ou de ter pedido colo sem  receio de se explicar?

A gente tá sensível. intolerante. A lactose, a demora, ao difernte. A gente perdeu nossa conexão com nosso sensorial.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Sobre mentores pra vida

Desde meu desligamento, tenho estudado ainda mais e buscado cursos, ouvido podcast, maratonando youtubers de conteúdo e documentários.
Levantar, passar um café, alongar e revesar entre o computador, o celular e livros - sim eu leio alguns simultaneamente.

TODOS tiveram um mentor que os guiaram até esse ponto.

As referências vão desde mães e chefes/colegas a celebridades notáveis e gurus mainstream.

Por mais que eu tembém tenha essas mesmas referências, na minha vida minha principal mentora e inspiração é uma mulher mais jovem, que passou o chapéu no natal em família depois de uma apresentação de trapézio no alpendre de casa, comprou passagem só de ida pra outro continente sem falar o idioma, faz workexchange há 4 anos e tem fobia de grandes capitais e ultracapitalismo, casou como Chico Bento mas hoje são a tradução literal de petit ami, e nesse exato momento está mochilando com uma bike de 3ª mão pelo caminho de Santiago de Compostela, entre uma temporada num serviço temporário e um curso de construção biosustentável, que chegou a morar num carro que gastou mais de manutenção que seu valor de mercado (e esses dois montantes são menores que o aluguel de um apê aqui), e que me pediu de presente um spa-day pra sua depilação anual quando voltasse de viagem e um celular novo porque a grana que ela tem mal dá pra comprar cigarros.



Essa pessoa é a minha irmã caçula. E ela não é minha heroína nem um exemplo pro que eu quero ser. As vezes é o absurdo oposto do que eu tenho construído. Mas é exatamente essa liberdade e inspiração mútua sem cobrança ou expectativas, esse entender silencioso sem julgar uma a outra, essa opinião gratuita e amorosa feito remédio amargo seguido de beijinho no machucado. Se eu preciso tomar uma decisão crucial, penso em tudo que ela poderia me dizer. Rio e desprezo a maioria dos comentários imaginários (óbvio!), e posso sempre contar com a franqueza das mensagens que demoram dias pra ser respondidas (e não raro chegam depois da cagada pra celebrar que eu devia ter feito diferente.)

Minha mentora pra vida é alguém que muitas vezes eu quero colocar no colo e deixar ela chorar horas sem explicar nada, e que sabe que eu vou rir de dar câimbra mesmo se eu achar um absurdo (afinal, se ela tá feliz, é a isso que vou gargalhar!) e que tem o instagram mais misterioso do mundo mas me faz de backup pra cada foto nossinhoradeusmelivremasquemmedera...

Minha mentora mal sabe o rumo da própria vida. E muitas vezes ela é quem tá no divã. E é essa necessidade mútua que faz dela meu maior exemplo: frágil, tola, hippie e contraventora, mas igualmente honesta, íntegra, solta e crente em algo muito maior do que a si mesma que está contido inteiro dentro de cada borboleta no estômago.

domingo, 27 de maio de 2018

Minorias

Essa palavra sempre me incomodou. E muito! Como assim que uma parcela tão expressiva, que fecha ruas e tem dias internacionais pra celebrar suas lutas e causas, é "menor"?
Mulheres, gays, negros... minorias?

Aí que a semântica social veio e me doeu mais ainda; Não é pela proporção de pessoas, mas pela pequenez da sua essência no meio. Menor de desprezível, e não de pouca gente.

Essa dor é ainda maior!

Como assim que mais da metade dos seres humanos, sem as quais a vida não existiria, que tem instintos de atenção dispersiva e de zelo, que tem o corpo em ciclos idênticos aos lunares, são menores?
Como assim que a expressão do amor que não se atém puramente à reprodução animal é tida como uma subversão do que nos diferente animais irracionais e nos tornam sucetíveis a sentimentos bons de carinho, alegria, paixão, envolvimento, hedonismo positivo, expressão artística, criatividade?
Como assim que uma etnia que cientificamente gerou todas as outras há milhares de anos é tida como inferior mesmo que sejam admitidos como os mais fortes, tenazes, adaptáveis, leais às raízes?

Quisera o Universo que eu nascesse meio termo: mulher criada em um lar feminista cujo pai me ensinou a ser amazona do meu próprio conto de fadas; bissexual que encontrou num homem o respeito à sexualidade diferente que só traz uma intimidade menos reprimida; pele branca com cabelo blackpower que me permite questionar dresscode corporativo que incentivam terninhos cinza e chapinhas sem me sentir ameaçada.

Cara, sério, só alguém realmente menor pra se fazer valer de poderes impostos e elitismos presunçosos...

sábado, 23 de setembro de 2017

Vida Nerd

Sempre fui nerd. Nunca fiquei mais de 2h estudando e normalmente era a primeira a acabar as provas. Tenho uma inteligência normal, dentro dos padrões de pessoas comuns. Fui bolsista integral na faculdade por ficar em primeiro lugar geral no vestibular (de uma faculdade privada do interior enquanto estudava pra federais concorridísimas)

O que me fez ser "mais inteligente" que as outras pessoas foi VIVER O MOMENTO PRESENTE. Eu estava inteira na sala de aula, absorvia cada palavra como se fosse vital, e saindo dali buscava experienciar tudo. Respirar mais profundo para acalmar - psicologia elementar - e a enxaqueca que me dava por desidratação e fome - biologia básica - do vento que criava atrito - física elementar - e precisava mudar a marcha da bicicleta - mecânica - e reconhecer o que me fazia mal pro estômago - nutrição e química orgânica. A gente lia e escrevia com um dicionário do lado  e saber que se bebemos 2L de leite por dia era preciso uma caixa de longa vida por semana e compensava comprar no atacado - matemática financeira - e que se eu pedalasse mais forte indo pro ballet eu já podia pular o aquecimento e podia treinar meus passos falhos antes da aula - fisiologia.

A gente aprende muita coisa na escola que é extremamente útil, mas ninguém nos ensina a aplicar esse conhecimento. E esse é o maior aprendizado que meus pais puderam me dar, como professores por carreira e por vocação: viver! Vivenciar!

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Coroações

Em pleno século XXI e com revoluções sociais globais profundas, ainda tem concurso de beleza em que as "modelos" mal conseguem articular frases inteiras e se exibem em trajes de luxo e de banho...

Modelo pra mim é aquela mulher que acorda cedo e sorri ao trocar um carinho de bom dia com quem estiver ao lado dela na cama - o marido, a companheira, o filho ou o bichinho de estimação já que ela escolheu morar sozinha - que consegue se alimentar com tranquilidade e equilíbrio, e tem a disciplina de se exercitar com parcimônia só pra acordar o corpo. Que enfrenta trânsito com educação, que cede lugar pra quem precisa - idoso e grávida, mas também aquela criancinha que mal equilibra no ônibus, o cara que tenta ler surfando no corredor, o turista acotovelado. Que no trabalho é respeitada pelo seu carisma, e ninguém a julga pela aparência baseada nos padrões estéticos das revistas de moda, e que é reconhecida e valorizada pela sua competência técnica e humana. Que recebe elogio sincero e pode contar com as críticas que a lapidam pra melhor. Que não precisa engolir choro porque é compreendida pela sua natureza, e exatamente por isso se expressa de forma mais forte, poética, clara. Que não precisa ter medo de ter seus direitos de ir e vir violentados. Que vai tomar todas com as amigas se tiver vontade, porque sabe das responsabilidades que tem e não sente o mundo sobre as suas costas por causa delas. Que sabe que gentileza e cavalheirismo não tem nada a ver com o que você tem no meio das pernas.

Miss pode ser homem também. E nem vou entrar no mérito daqueles homens que também sofrem com o machismo por não serem machos alfa - vítimas equânimes de padrões estéticos e comportamentais da mídia. É aquele cara que preferiu estudar a ir pra balada a semana inteira e na véspera do exame dormiu bem pra estar tranquilo. É o cara que sabe que se homem chora é mais humano e menos babaca. Que tira vantagem de ser fisicamente mais forte pra ajudar quem não é. É aquele pai "herói" que não só "ajuda", mas é pai junto que educa em parceria e pra vida toda, mesmo não morando mais junto. É o cara que até faz chacota mas com aquele brother meio cérebro que ainda acha que homem tem que ser ogrão e pegador tentando tirar sarro quando negou convite pro happy hour pra ficar em casa com a esposa que tava tristinha ao telefone. Que pode até elogiar físicamente alguém, mas o faz pra que ela, e só ela ouça e não pra impor seus desejos, e respeita negativas em qualquer grau. Que ouve e debate pelas idéias em si, e usa as diferenças pra melhorar coletivamente as coisas. Que usa seu papel mais desenvolto na sociedade pra garantir que todos o tenham.É o cara que sabe que feminismo é a luta por direito de ser gente, e não de supremacia da mulher, e encoraja isso nas amigas e exige isso dos amigos.

Modelo é aquela pessoa que você nem conhece, mas só de alguém contar pra você sobre, te vem ao pensamento quando você quer fazer uma coisa boa, simples e verdadeira e tem medo de ser julgada, aí você respira fundo, abre o sorriso e enfrenta o mundo. É aquela pessoa que certamente lida com problemas de auto estima, que tem angústias, que ainda não realizou vários sonhos, mas que se olha no espelho e dá mais atenção ao brilho dos olhos do que alguns centímetros fora do manequim de revista. Pra carregar uma coroa tem que ter a cabeça erguida pela coragem de fazer sempre o seu melhor, braços graciosos pra abraçar quem precisa, barriga "no lugar" porque ali é o chacra de coragem, e não um mero músculo a ser malhado à exaustão, que tem pernas firmes pra aguentar as pedras do caminho independente do tônus estético, que anda com segurança e peito aberto porque é bem vinda e bem quista. Que abre o sorriso e ilumina o ambiente e ao abrir a boca não fere.

Esses concursos deviam apelar pra pessoas que saibam o que significa desejar a paz mundial. Que sejam lindas sem forçar a barra ou quilos de maquiagem e laquê. Que sejam soberanas em empatia, em representatividade, em exemplo de humanidade e gentileza.

E sei que pouca gente tem a capacidade de reivindicar essa coroa sem hesitar.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Banco de três pernas não manca

Essa curiosidade era mera coincidência de design quando era criança, já que sendo 3 irmãos, meu pai sempre construía nossos cantinhos de brincar em trios e era mais prático de montar e improvisar.
A medida em que o universo e a consciência iam se expandindo, comecei a notar que a trinca é uma regra de equilíbrio em várias ocasiões: as divindades trinas, os tripés de alguma teoria de gestão, as maiores empresas são fundadas por um trio...

Há mais de um ano meu marido e eu resolvemos aproveitar que ambos estávamos desempregados desimpedidos profissionalmente pra nos dedicarmos ao nosso sonho de hospitalidade. E na estruturação acabamos percebendo que as reuniões com cliente sempre fluiam melhor em 3. Eu, ele e o cliente, ou um de nós e o casal que iríamos trabalhar. Com 4, dispersávamos, com 2, ficavam dúvidas.

Achei num dos meus (milhares) de cadernos de aleatoriedades um rabisco de uma oficina de pensamento com a Mandalah, que culminou num brainstorming individual de que quando temos 3 apoios o equilíbrio acaba sendo mais fácil do que uma dupla que não pára em pé ou uma turma desnivelada. E pensei de novo: banco de três pernas não manca.
Um casamento que se evolui com um filho, ou num trabalho conjunto, ou na espiritualidade. Sócios que tem na secretária seu ponto de orientação, ou naquele venture pra quem precisam prestar contas e por isso os força a manter o plano ou se adaptar da melhor forma possível. Aquela amiga sincera que vai desempatar uma discussão improdutiva. 'tendeu?

- Ah, então é só colocar alguém no meio que dá certo!

Claro que não! Se não puderem confiar mutuamente nesses 3 pilares, vai todo mundo pro chão, né! E tem vários textos desses motivacionais, sem mencionar as diversas teorias de administração, marketing, RH, finanças que se apoiam em trígonos.

É nítido pra quem tem o mínimo de sensibilidade a grande mudança na forma como nos relacionamos coletivamente. Os negócios mudaram, a forma de consumo mudou, e como nos comunicamos e compartilhamso então! Pela numerologia, "após a individualidade e a união, surge a interação. É o frutificar, é a expansão".


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Conselhos de bandeja (ou dos não obstáculos)

Aí que um amigo resolveu largar tudo pra ir pro outro lado do mundo recomeçar a vida. Não, não é mais um que foi viver de brigadeiro, muito pelo contrário. E isso me fez pensar.

Há pouco mais de um ano, eu me via passando por mais um desligamento doloroso, sofrido, decepcionante. No auge da dedicação, quando os fodões da empresa olham praquela mineirinha raquítica e pensam tá aí uma grande profissional! mas entre eles e eu tem gente que só consegue defender o seu se não tiver concorrência. Eu tava num momento de dar um único passo a mais e poder me dedicar a maternidade, e me vi literalmente à beira do precipício.

Que alternativa eu tinha? A óbvia: abror as asas e me jogar.

É, eu acabamos indo viver de feirinhas gastronômicas, o que até então eram um hobby rentável. Não, não foram mil flores, não tivemos a vida que sempre sonhamos. Nos mudamos pra um apê metade do tamanho e o orçamento metade dessa metade. Abortei o plano de gravidez por prazo indeterminado. Vida social só quando tinha reunião do coletivo ou no after work. Mas conheci uma porrada de gente com as mesmas angústias e "penhascos" à sua frente, e foi aí que eu comecei a endenter que raios tava acontecendo com a minha geração.
A gente já tem tudo, nossos pais já se mataram pra garantir que tivéssemos. Digo isso financeira, moral e socialmente. A gente pôde se permitir questionamentos que, na geração deles, ninguém tinha tempo ou permissão. Nosso único objetivo era conquistar a felicidade - e isso nos obrigou a descobrir e seguir nossa vocação - e nenhum teste vocacional pré-vestibular iria nos restringir a diplomas.

Nossa, Lary, vai dizer que ninguém mais precisa estudar? Muuuito pelo contrário, cáspita!!!
O malabarismo que a gente faz pra dar conta de tanta produção pra pouco lucro, e lidar com aquele dinheirinho sem surtar (ou quase) entre o necessário e o irremediável, as oportunidades que a gente tinha que criar e os negócios que foram se desdobrando a partir de tudo que já havíamos feito a vida, nos forçaram a simplificar muito - muito mais por necessidade do que por hipponguisse.

Eu tinha uma mania pra lidar com minha hiperatividade sem perder as conexões sensoriais: quando estava a caminho de um compromisso, não pararia. Se algum obstáculo se impunha no caminho, eu só desviava (e com isso sempre tinha uma esquina nova com uma lojinha bacana, um graffitti novo, topava uma amiga daquelas que nunca dá certo de encontrar, evitava um acidente). Acabei aceitando que nem todo obstáculo é pra ser ultrapassado, às vezes é o jeito do universo te dizer que o caminho certo é pro outro lado mesmo.

Conselhos de coragem a gente tem aos montes, mas eu senti muita falta daqueles quando coragem não é suficiente. Se conselho fosse bom a gente dava de bandeja, de preferência com café e pão de queijo: não desiste na primeira, mas não insiste demais não. Perdedor às vezes é quem perde tempo dando cabeçada se você tem recursos - que sejam energéticos - pra partir pra próxima. Sentar e chorar alivia, abrir mão te libera. Pedir ajuda (quem diria!) pode te ajudar mesmo! Desabafar ganhou até nome chique: branstorming, nunca menospreze um.

(continua... contribua!)

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Socorro

Primeira semana de Olimpíadas. Hospital público no centro da cidade, colado na Central.
10:30 de uma terça - estatísticamente o dia de maior movimento para cobrir retardatários de um fim de semana extendido...

Não tinha cadeira pra remoção e não pode entrar com acompanhante se estiver consciente, então tive que ir pulando até a triagem até que apareceu um maqueiro mais franzino que eu com uma cadeira de roda manca, e foi me puxando de costas.
- Oi Dr. Tive um acidente de moto trabalhando, e quebrei o pé, esfolei joelho, luxei o punho....
- Raio X no terceiro andar pelo corredor amarelo no fim daquele ali a direita...
Lá vou eu puxada de costas pelo maqueiro magricela.
1h45 depois, enquanto passava outro maqueiro truculento arrastando 2 macas ao mesmo tempo perguntando cadê o equipamento padrão olímpico pra uma médica de plantão há 40h, sou chamada pra radiografia. O único aparelho que estava funcionando no hospital inteiro era operado por 1 residente e 3 alunos "tomando nota no celular" ao canto. Com mãos de borboleta - delicadas e muito ágeis - em 5min ela tinha feito 7 chapas em posições diferentes. Esperei mais uns 40min até que o ortopedista me chamou. A cadeira de remoção não entrava na sala, que tem um degrau, então ele me examinou no corredor mesmo, colocando a radiografia contra a luz do saguão.
- Moça, vai lá sala dooutro corredor e pede pra fazerem engessarem até o joelho.
- Ok, mas e o punho?
- Cê tá mexendo a mão. Não quebrou nada não.
Como os enfermeiros estavam almoçando, ficamos eu e mais meia dúzia de gente esperando no corredor. Chamaram 3 pacientes de uma vez, sentamos lado a lado na maca e o professor de enfermagem dava as instruções para a aula prática que estava acontecendo ali. A enfermeira-aluna enrolou no meu pé com 2,5kg de gesso com um acabamento lindo, mas sem posicionar meu pé certo nem se dar conta das pontas de osso, quanto mais considerar inchaços, deslocamentos, tato...
- Onde eu consigo muletas pelo SUS?
- Ih, minha filha, tem náum, hein...
- Posso chamar um Uber e pedir pra ele entrar aqui no estacionamento pra me apanhar?
- Aqui dentro só entra ambulância. Tem o ponto de ônibus ali também ó!
(Sério? De gesso e sem muleta?)

5 dias após a fratura, domingão a tarde, volto no mesmo hospital. Com o punho estourado de insistir nas muletas ganhadas de uma amiga.
- Doutor, meus dedos estão esntrangulados no gesso, além de parestesia e hematomas apareceram...
- Não posso trocar o gesso, é parte do tratamento indicado por outro médico, não posso interferir.
- (!!!) Hum...

Arrumei uma bota emprestada. Arranquei o gesso no chuveiro. Olha, se eu fosse esperar os 45 dias podia era amputar de uma vez... No ambulatório do bairro, marcaram minha primeira consulta com a ortopedia pra daqui a 3 meses, pra ver se posso tirar o gesso... (que eu tenho que tirar dali a 37 dias...)

Primeira semana pós Olimpíadas, num outro hospital municipal só que no metro² mais caro do Brasil.
16h de uma quinta, inexplicávelmente o dia de pior trânsito na cidade.
- Moço, fraturei há um tempo, tava gangrenando de tão apertado, coloquei a bota por conta própria mas sei que não está correto.
- Hum, dói aqui? Como está aqui? Hum, ok, passa por aqui pra não precisar dar a volta, que o ortopedista vai te atender.
20min de espera, e me chama um resitende. Examina, aperta, explica, pede radiografia.
Meu marido me acompanhao tempo todo e quase não tive tempo de tomar o cafézinho que vendem na lanchonete no saguão interno, me chama uma aluna de radiologia.
(pronto, lá vou eu de cobaia pra aula prática)
- O posicionamento correto é dessa forma, estão vendo? as Alunas podem tentar fazer da sua mão, que o médico pediu pra ver se houve fratura por stress?
A moça pede pro supervisor e conferir os resultados antes de me entregar. O ortopedista do novo turno pede outro gesso, passa encaminhamento de tratamento ambulatorial, maridinho pode ir marcar pra eu não precisar ir até lá do outro lado só pra um protocolo. Vários chumassinhos de algodão protegendo meus ossinhos, o enfermeiro me dei a ponta da faixa pra sustentar o ângulo certo.
- Oh, gelo aí nesse punho, e repouso. 30 dias!

E há quem diga que não existe bairrismo no Rio de Janeiro!